POLÍTICA COM INTEGRIDADE: A IMPORTÂNCIA DE VERIFICAR PARA CONFIAR

28-03-2025


A política, como qualquer área da vida, está repleta de desafios.

Alguns são novos, exigindo soluções criativas e inovadoras.

Outros, no entanto, já foram resolvidos noutros contextos, e basta adaptar essas respostas à nossa realidade.

Um desses problemas é a incompatibilidade entre pessoas e cargos políticos ou funções de envolvimento público.

Este é um tema que, se não for devidamente abordado, pode ter consequências graves para a reputação e a credibilidade das instituições.

Já pararam para pensar quantas vezes vimos figuras públicas serem envolvidas em escândalos que poderiam ter sido evitados com uma seleção mais rigorosa?

Quantas vezes a confiança dos cidadãos foi abalada porque alguém, num cargo de responsabilidade, não estava à altura das expectativas éticas e profissionais?

Estas situações não são inevitáveis.

Há formas de as prevenir!

Um exemplo que merece destaque é o Baseline Personnel Security Standard (BPSS), implementado há décadas pelo governo britânico.

Este sistema foi criado, inicialmente, para garantir a segurança nacional (durante a guerra fria para evitar a infiltração de agentes do KGB no serviço público e político britânico depois de numerosos e escandalosos casos), mas rapidamente se tornou uma ferramenta essencial para proteger a reputação das instituições.

O BPSS verifica os antecedentes e as "relações" dos candidatos a cargos públicos, assegurando que não há conflitos de interesses ou condutas éticas incompatíveis.

O conceito de vetting — ou seja, a avaliação minuciosa de um indivíduo antes de lhe ser atribuída uma função — não é novo.

No entanto, é surpreendente como ainda é negligenciado em muitos contextos, especialmente na política.

Afinal, confiar um cargo público a alguém é uma decisão que deve ser tomada com o máximo de informação e transparência.

Mas não se trata apenas de evitar escândalos.

Trata-se de garantir que as pessoas certas estão nos lugares certos.

Pessoas que, além de competentes, sejam íntegras e estejam alinhadas com os valores e os objetivos da instituição que representam.

Isto não é apenas uma questão de segurança; é uma questão de respeito pelos cidadãos e pela democracia.

Imagine um cenário em que todos os candidatos a cargos políticos ou de envolvimento público passassem por um processo rigoroso de vetting.

Seria possível identificar potenciais conflitos de interesses, condutas questionáveis ou até mesmo ligações que pudessem comprometer a integridade do cargo, mesmo para o interesse da própria pessoa que, não raras vezes, não sabe que tem incompabilidades ou que determinado acontecimento do passado (por vezes muito distante) pode pôr em causa a sua capacidade para assumir determinado cargo ou função.

Afinal, com o escrutínio, mediatização e mesmo sensacionalismo de hoje em dia, qualquer pequena coisa pode assumir as dimensões de um escândalo.

Assim, este sistema, não só protegeria as instituições como também reforçaria a confiança dos cidadãos.

Claro que nenhum sistema é infalível.

Mas a implementação de medidas como o BPSS, ou outras semelhantes, reduz significativamente os riscos.

E, mais importante, envia uma mensagem clara: a política não é um campo onde vale tudo.

Há regras, há padrões, e estes devem ser respeitados.

Outro conceito que deve ser incorporado na política é o de clearance — a autorização concedida após uma avaliação de segurança.

Este processo não se limita a verificar antecedentes criminais; inclui também uma análise do perfil psicológico, das ligações pessoais e profissionais, e até das redes sociais.

Tudo isto contribui para uma imagem mais completa do candidato.

E não podemos esquecer a due diligence — a investigação prévia que deve ser feita antes de qualquer decisão importante.

Seja na política ou nos negócios, a due diligence é essencial para evitar surpresas desagradáveis.

No contexto político, isto significa garantir que os candidatos não só têm as competências necessárias, mas também a integridade exigida para o cargo.

Mas por que é que isto ainda não é uma prática comum em todos os países?

Porque é que, tantas vezes, vemos cargos importantes serem atribuídos com base em critérios questionáveis?

A resposta, infelizmente, está muitas vezes na falta de vontade política. Implementar sistemas como o BPSS exige coragem e compromisso com a transparência.

E, nem sempre, esses valores são prioritários.

No entanto, acredito que estamos num momento de viragem.

Os cidadãos estão cada vez mais conscientes e exigentes.

Já não aceitam desculpas ou justificações para comportamentos que comprometem a integridade das instituições.

E isso é uma coisa boa!

É um sinal de que a democracia está a funcionar.

Mas não podemos deixar toda a responsabilidade nas mãos dos cidadãos.

As instituições têm o dever de se autorregular, de garantir que os seus processos são transparentes e que as suas escolhas são as melhores possíveis.

Isto não é apenas uma questão de ética; é uma questão de sobrevivência. Instituições que perdem a confiança dos cidadãos dificilmente se mantêm relevantes.

E aqui chegamos a um ponto crucial: a política não é apenas sobre poder.

É sobre serviço!

Servir os cidadãos, servir o país, servir os valores que nos unem.

Quando nos esquecemos disso, corremos o risco de transformar a política num jogo de interesses, onde o bem comum fica em segundo plano.

Por isso, é tão importante escolher bem as pessoas que vão ocupar cargos de responsabilidade.

Estas pessoas não são apenas representantes de uma instituição; são representantes de todos nós.

E, como tal, devem ser escolhidas com o máximo cuidado.

Mas como garantir que estas escolhas são feitas de forma justa e transparente?

A resposta está na implementação de sistemas como o BPSS, adaptados à realidade de cada país.

Estes sistemas não são uma solução mágica, mas são um passo importante na direção certa.

Claro que há desafios. Implementar um sistema destes exige recursos, tempo e, acima de tudo, vontade política.

Mas os benefícios superam largamente os custos.

Afinal, quantos escândalos poderiam ser evitados?

Quantas crises de confiança poderiam ser prevenidas?

E não se trata apenas de evitar o negativo.

Trata-se também de promover o positivo.

Quando os cidadãos veem que as instituições estão comprometidas com a integridade e a transparência, a sua confiança aumenta.

E isso é essencial para o bom funcionamento da democracia.

Além disso, a implementação de sistemas como o BPSS pode ter um efeito dissuasor.

Sabendo que vão ser submetidos a uma avaliação rigorosa, os candidatos a cargos públicos pensarão duas vezes antes de se envolverem em comportamentos questionáveis.

Isto cria uma cultura de responsabilidade e integridade.

Mas, para que isto funcione, é essencial que o processo seja justo e transparente.

Não pode ser usado como uma ferramenta de exclusão ou perseguição política.

Tem de ser aplicado de forma consistente e imparcial, com base em critérios claros e objetivos.

E, claro, é importante que os cidadãos estejam informados sobre estes processos.

A transparência não é apenas uma questão de ética; é também uma forma de reforçar a confiança.

Quando os cidadãos sabem que os candidatos a cargos públicos são submetidos a uma avaliação rigorosa, sentem-se mais seguros e confiantes.

Mas não podemos parar por aqui.

A política é um campo em constante evolução, e os desafios que enfrentamos hoje podem ser muito diferentes dos que enfrentaremos amanhã.

Por isso, é essencial que continuemos a procurar novas soluções, a aprender com as melhores práticas e a adaptá-las à nossa realidade.

E isto não se aplica apenas à política.

As empresas também têm um papel importante a desempenhar.

Afinal, muitas vezes são elas que financiam campanhas políticas ou estabelecem parcerias com instituições públicas.

Por isso, é essencial que também elas adotem práticas de due diligence e vetting.

Imagine um mundo em que todas as decisões importantes — seja na política ou nos negócios — fossem tomadas com base em informação completa e transparente. Um mundo em que a integridade e a reputação fossem prioridades. Não seria um mundo melhor?

Claro que isto não acontecerá de um dia para o outro.

Mas cada passo que damos nesta direção é um passo em frente. E cada instituição que adota estas práticas está a contribuir para um futuro mais justo e transparente.

Por isso, apelo a todos os que têm poder de decisão: não tenham medo de implementar sistemas como o BPSS.

Não tenham medo de exigir mais dos candidatos a cargos públicos.

E, acima de tudo, não tenham medo de colocar a integridade e a transparência no centro das vossas decisões.

Porque, no fim do dia, a política não é sobre poder. É sobre pessoas. E as pessoas merecem o melhor que podemos oferecer.

E isto não é apenas uma questão de ética.

É uma questão de eficiência.

Quando as pessoas certas estão nos lugares certos, as instituições funcionam melhor.

E, quando as instituições funcionam melhor, todos beneficiamos.

Por isso, não podemos continuar a ignorar este problema.

Temos de agir! Temos de implementar sistemas que garantam a integridade e a transparência.

Temos de escolher bem, para servir melhor.

E, se precisarmos de inspiração, podemos olhar para exemplos como o BPSS. Podemos aprender com as melhores práticas e adaptá-las à nossa realidade.

Podemos, e devemos, fazer melhor.

Porque a política não é um jogo.

É um serviço!

E, como tal, deve ser tratada com o respeito e a seriedade que merece.


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