O REGRESSO DA EXTREMA-DIREITA Quando a Esquerda Falha, o Radicalismo Avança

A Alemanha, um país que carrega nas costas o peso de um dos capítulos mais sombrios da história humana, o nazismo, parece estar a dar ouvidos novamente a vozes extremistas.
Como é possível que, menos de um século depois do terror do regime de Hitler, a extrema-direita ganhe força?
A resposta não está na sedução irresistível do radicalismo, mas sim no falhanço gigantesco da esquerda e da social-democracia modernas.
Durante décadas, a esquerda foi a voz dos trabalhadores, das classes médias e da justiça social.
Era o farol que guiava aqueles que lutavam por melhores condições de vida, salários dignos e um Estado que cuidasse dos seus cidadãos.
Mas algo mudou.
Nos últimos 20 anos, a esquerda perdeu-se num labirinto de ideologias abstratas, debates elitistas e causas desconectadas da realidade de quem trabalha todos os dias para pagar contas.
Deixou de ser a voz do povo para se tornar uma espécie de observadora distante, que fala sobre o povo como se este fosse um conceito teórico, e não milhões de pessoas reais.
Liderada por profissionais da política, mais preocupados com "likes" e tendências do que com salários e preços da energia, a esquerda abraçou todas as modas "woke" e ambientais sem perceber o impacto brutal das suas políticas.
Enquanto isso, a classe média, que outrora era o seu maior aliado, foi deixada a arder.
Impostos crescentes, taxas absurdas e um Estado cada vez mais ineficiente criaram um cenário de descontentamento generalizado.
E quando a classe média sente que está a ser esquecida, vira-se para quem promete ouvi-la, mesmo que isso signifique optar pelo populismo da extrema-direita.
A extrema-direita não cresce porque tem soluções geniais ou ideias brilhantes.
Cresce porque aparece como a única alternativa ao desastre progressista.
Perante governos que impõem sacrifícios sem critério e que tratam o cidadão comum como um obstáculo às suas utopias, as pessoas respondem com o voto.
E votam não necessariamente a favor da extrema-direita, mas contra a "esquerda caviar", que perdeu completamente o contacto com a realidade.
É um voto de protesto, um grito de desespero de quem se sente traído.
A história ensina-nos que ideologias radicais prosperam no vazio deixado pelo falhanço dos sistemas moderados.
Hoje, a esquerda está a perder porque deixou de ser uma solução para se tornar um problema.
Se continuar neste caminho de elitismo e desconexão, a extrema-direita não precisará de grandes estratégias para vencer – basta-lhe continuar a ser o refúgio dos que se sentem traídos.
E isso é assustador.
Mas como é que a esquerda chegou a este ponto?
Como é que um movimento que nasceu para defender os mais vulneráveis se tornou tão distante das suas raízes?
A resposta pode estar na forma como a esquerda moderna se relaciona com o poder. Em vez de lutar por mudanças concretas, muitos líderes de esquerda parecem mais interessados em manter o status quo, desde que isso lhes garanta uma posição confortável no sistema.
Tornaram-se parte da elite que outrora criticavam, e isso custou-lhes a credibilidade.
Enquanto isso, a extrema-direita soube capitalizar o descontentamento.
Apresenta-se como a voz dos "esquecidos", dos "traidores pelo sistema", e promete soluções simples para problemas complexos.
Claro que essas soluções raramente funcionam, mas isso pouco importa.
O que importa é que, num mundo cada vez mais incerto, a extrema-direita oferece uma sensação de segurança, mesmo que ilusória.
E, para muitos, isso é melhor do que nada.
A Alemanha, em particular, enfrenta desafios únicos.
Além das questões económicas e sociais que afectam toda a Europa, o país ainda lida com o legado do seu passado nazi.
Durante décadas, a memória do Holocausto e dos horrores da Segunda Guerra Mundial serviram como um antídoto contra o extremismo.
Mas o tempo passa, e as memórias desvanecem-se.
Para as gerações mais jovens, o nazismo é algo distante, quase abstracto.
E, num contexto de crise, as ideias extremistas podem parecer menos assustadoras do que a realidade que enfrentam.
Mas não podemos culpar apenas a esquerda pelo crescimento da extrema-direita.
A direita tradicional também tem uma grande responsabilidade.
Em muitos casos, os partidos de direita moderada normalizaram o discurso extremista, adoptando posições cada vez mais radicais na tentativa de conquistar eleitores descontentes.
Em vez de combater o populismo, alimentaram-no.
E, ao fazê-lo, abriram as portas para o regresso de ideologias que pensávamos estarem confinadas aos livros de história.
O que podemos fazer, então, para inverter esta tendência?
Em primeiro lugar, a esquerda precisa de reconectar-se com as suas raízes.
Precisa de voltar a ser a voz dos trabalhadores, das classes médias e dos mais vulneráveis.
Precisa de abandonar o elitismo e o discurso abstrato, e focar-se nas questões que realmente afetam as pessoas: emprego, saúde, educação, habitação.
Precisa de ouvir, de verdade, e não apenas de fingir que ouve.
Em segundo lugar, é essencial combater a desinformação e o discurso de ódio.
A extrema-direita prospera na divisão e no medo, e é nossa responsabilidade contrariar essa narrativa.
Precisamos de promover um diálogo aberto e construtivo, baseado em factos e não em preconceitos.
E precisamos de lembrar às pessoas que, por mais difícil que seja o presente, o extremismo nunca é a resposta.
Finalmente, precisamos de reflectir sobre o papel da política na sociedade.
A política não deve ser um jogo de poder, mas sim uma ferramenta para melhorar a vida das pessoas.
Se queremos evitar o regresso do extremismo, precisamos de construir um sistema que seja justo, inclusivo e verdadeiramente democrático. Um sistema que não deixe ninguém para trás.
A Alemanha, e o mundo, estão numa encruzilhada.
O regresso da extrema-direita é um sinal de alerta, um aviso de que algo está profundamente errado.
Mas também é uma oportunidade para repensarmos o caminho que estamos a seguir.
Se aprendermos com os erros do passado e trabalharmos juntos para construir um futuro melhor, talvez possamos evitar repetir os erros que nos trouxeram até aqui.