O GRANDE ERRO DO REARMAMENTO EUROPEU: UMA CORRIDA PERDIDA À PARTIDA

O que está a acontecer na Europa, com o anúncio de um gigantesco plano de rearmamento, não é apenas um erro estratégico—é uma ilusão perigosa.
A decisão de gastar 800 mil milhões de euros na defesa, numa tentativa tardia de ganhar autonomia militar, é um tiro no escuro que dificilmente trará os resultados esperados.
E não é difícil perceber porquê.
Desde logo, há um problema óbvio: já vem tarde.
As forças armadas não se constroem de um dia para o outro.
Os sistemas de defesa modernos exigem anos de pesquisa, desenvolvimento, testes, produção e implementação.
Um exército eficaz não se improvisa, e a formação de militares capazes, desde o nível táctico ao operacional, leva tempo.
Quando este "plano de rearmamento" estiver finalmente completo—se alguma vez o for—o mundo já terá mudado e as armas adquiridas e estratégias implementadas estarão obsoletas.
Além disso, há a questão política.
A Europa tenta agora libertar-se de uma dependência estratégica dos Estados Unidos que dura há décadas.
Mas essa autonomia não se constrói em meses ou anos; exige gerações.
Desde o final da Guerra Fria que era evidente que a relação de subserviência com Washington não iria acabar bem, mas os líderes europeus preferiram ignorar os sinais.
Sem a ameaça direta aos Estados Unidos por parte da extinta União Soviética e com a "realocação" das tensões comerciais, diplomáticas e militares no contexto geoestratégico do Pacifico com a República Popular da China como "novo" grande adversário, a OTAN/NATO tornou-se inútil e obsoleta e a Europa periférica e dispensável para a definição das grandes questões geopolíticas globais.
Esta conjuntura é tão obvia, tão previsível e tão certa que só por profunda ignorância, alarmante incúria ou descarada milícia os nossos políticos não a viram (ou quiseram ver).
Agora, correm atrás do prejuízo, sem perceber que essa corrida já está perdida.
Mas o maior erro estratégico é outro.
Ninguém se arma eficazmente contra a maior potência nuclear do mundo.
A história já nos ensinou que a única forma de impedir um ataque de uma superpotência nuclear é garantir um arsenal equivalente. É o princípio da dissuasão, o famoso "mútuo aniquilamento assegurado".
E a Europa não está sequer perto de atingir essa capacidade.
Ao invés de investir num verdadeiro programa de dissuasão nuclear, está a desperdiçar recursos em armamento convencional que, em caso de um conflito com uma potência como a Rússia, será praticamente inútil.
Não é uma questão de opinião, é uma questão de factos.
As guerras modernas, quando travadas entre potências, são decididas pelo equilíbrio nuclear, não pelo número de carros de combate, aviões ou soldados, em especial num território tão imenso como a Rússia que, diga-se, nunca, em toda a sua história perdeu uma guerra muito devido à sua extensão (praticamente impossível de ocupar e muito mais de manter), mas também pela tenacidade e empenho com que os russos, independentemente de quem os lidera, defendem a sua "Rodina", a "Mãe Rússia"
E depois há o problema interno.
A Europa não é um bloco homogéneo.
É um conjunto de países com histórias complexas, rivalidades antigas e interesses muitas vezes contraditórios.
Armar este continente significa abrir a porta para futuras guerras regionais, como acontece desde há séculos e aconteceu ainda muito recentemente nos Balcãs.
O risco de um conflito interno, entre nações europeias com diferentes prioridades e ambições, cresce exponencialmente à medida que a militarização avança.
Já vimos no passado o que acontece quando a Europa se enche de armas sem uma verdadeira unidade política.
A história está cheia de exemplos de alianças frágeis que colapsam quando os interesses nacionais entram em choque.
E hoje, com a crescente instabilidade política, a erosão da coesão da União Europeia e o ressurgimento de nacionalismos, esse perigo é mais real do que nunca.
O mais grave é que esta decisão foi tomada sem um verdadeiro debate, sem uma avaliação estratégica profunda e sem uma consulta adequada aos cidadãos.
Como de costume, a União Europeia age sem medir as consequências, empurrando os Estados-membros para uma via de endividamento crescente e riscos incalculáveis.
Os países mais ricos—França, Alemanha, Reino Unido—talvez consigam suportar os custos, mas para os mais pobres, esta corrida ao armamento será um fardo insustentável.
O resultado será mais austeridade, mais impostos e menos investimento nas áreas que realmente interessam à população: saúde, educação, inovação tecnológica e segurança social.
O destino dos 800 mil milhões de euros já está traçado: irá alimentar os gigantes da indústria militar—americanos, britânicos, franceses—e, de forma mais discreta, até russos e chineses, que sempre encontram formas de lucrar com o mercado global de armamento.
Os europeus pagarão a conta, mas os lucros ficarão noutras mãos.
Tudo isto poderia ser evitado com uma estratégia de defesa realista e inteligente.
Em vez de embarcar numa corrida armamentista sem sentido, a Europa deveria focar-se em reforçar a sua capacidade diplomática, tecnológica e económica.
A defesa começa na resiliência económica e na inovação, não na compra desenfreada de armas.
A aposta deveria estar na cibersegurança, na inteligência artificial aplicada à defesa, na guerra eletrónica e no desenvolvimento de sistemas de dissuasão modernos.
Mas, mais uma vez, a União Europeia escolheu o caminho errado—aquele que garante mais despesa, mais riscos e menos segurança real.
O rearmamento europeu não é apenas inútil: É perigoso!
É uma tentativa desesperada de recuperar um atraso impossível de colmatar, num tabuleiro de xadrez onde as peças já estão todas posicionadas.
O destino desta estratégia está escrito: será mais um fracasso previsível da liderança europeia, com custos incalculáveis para os cidadãos.
O verdadeiro poder não está na quantidade de armas que se possui, mas na capacidade de evitar que alguma vez sejam usadas.
E nisso, a Europa está a falhar redondamente.