FINAL DAS GUERRAS A “GLACIAÇÃO” DOS CONFLITOS

Os conflitos armados já não são travados como em tempos idos, com dois exércitos alinhados frente a frente em campos de batalha.
As guerras modernas são híbridas, furtivas e altamente tecnológicas.
Hoje, os beligerantes raramente se veem ou sequer compreendem plenamente os seus oponentes.
Numa realidade onde drones, ciberataques e desinformação substituem os confrontos diretos, a guerra transformou-se num jogo estratégico em que as regras são incertas e os objetivos frequentemente difusos.
Mas, como se vence uma guerra que quase ninguém consegue entender ou prever?
A resposta, por mais desconcertante que seja, é que talvez estas guerras não se vençam.
Quando não há um desequilíbrio claro entre as partes, os conflitos tendem a arrastar-se até um ponto de exaustão, como vemos no caso da Rússia e da Ucrânia.
O exemplo deste conflito atual revela uma dura realidade: a guerra do futuro não terá vencedores nem vencidos.
Em vez disso, terminará, inevitavelmente, num ponto de impasse.
Quando ambos os lados têm mais a perder do que a ganhar, ou nenhum consegue tomar uma iniciativa decisiva, os conflitos congelam.
Entram num estado que podemos chamar de "glaciação".
Não há atos de beligerância significativos, não há grandes batalhas, mas também não há paz.
As posições mantêm-se imutáveis, como se fossem estátuas de gelo num campo onde o tempo parece ter parado.
Neste limbo, a diplomacia desempenha um papel frágil e quase teatral, funcionando apenas para manter as aparências.
A "glaciação" não traz resolução, mas apenas uma trégua silenciosa e incerta.
Quase por certo, será este o desfecho do conflito entre a Rússia e a Ucrânia.
Não porque ambas as partes o desejem, mas porque esta é a natureza dos conflitos contemporâneos: eternos, sem fim claro, sem um verdadeiro armistício.
É um estado de guerra latente, onde a luta continua, mas de forma implícita e subterrânea.
As armas não deixam de estar prontas a disparar, e as estratégias continuam a ser traçadas, mas o combate direto é suspenso, como se houvesse uma trégua tácita imposta pela própria exaustão.
A guerra congela, mas não desaparece.
A paz, nesse cenário, torna-se apenas um sonho distante.
Olhando para o futuro, esta "glaciação" poderá tornar-se a norma em muitos conflitos internacionais.
Quando o equilíbrio de poder impede avanços significativos e as perdas superam qualquer possível ganho, os conflitos tornam-se imobilizados no tempo.
E enquanto a diplomacia tenta criar uma fachada de normalidade, as tensões permanecem latentes, prontas a reacender-se ao menor sinal de fraqueza de qualquer dos lados.
A guerra, tal como a conhecíamos, já não existe.
A imagem de soldados em trincheiras ou de batalhas épicas já foi substituída por ataques cibernéticos e campanhas de desinformação.
Hoje, a força não se mede apenas em tanques ou aviões, mas em dados, algoritmos e controlo de narrativas.
Num mundo assim, como podemos falar de vencedores?
Uma guerra que nunca termina é uma derrota para todos, independentemente de quem controla mais território ou possui mais recursos.
O sofrimento humano continua, as economias colapsam e a estabilidade global é sacrificada em nome de interesses que muitas vezes nem sequer são claros.
Este novo paradigma não significa apenas um desafio militar, mas também uma crise moral e ética.
Como justificar guerras que não têm fim?
Como lidar com a dor de populações inteiras que vivem em zonas de conflito eterno?
As consequências humanitárias destes impasses são devastadoras.
Gerações inteiras crescem sem conhecer a paz, rodeadas de incerteza e violência latente.
A guerra torna-se parte do quotidiano, algo tão comum que quase se normaliza. E isso, por si só, é uma tragédia.
A diplomacia, por mais nobre que seja, muitas vezes não está equipada para lidar com estes novos tipos de conflito.
As mesas de negociação não conseguem descongelar glaciações quando os interesses em jogo são tão profundamente enraizados.
As potências internacionais, por sua vez, também enfrentam os seus próprios desafios.
Numa era de rivalidades geopolíticas crescentes, os incentivos para mediar conflitos diminuem.
Muitas vezes, os próprios mediadores tornam-se partes interessadas, complicando ainda mais qualquer tentativa de resolução.
É difícil não ser cético quanto à possibilidade de quebrar este ciclo.
A história mostra-nos que os conflitos raramente terminam sem uma mudança significativa no equilíbrio de poder.
Mas no cenário atual, onde cada lado tem os seus próprios aliados, recursos e estratégias sofisticadas, essa mudança parece improvável.
Em vez disso, o mundo parece destinado a assistir a mais guerras congeladas, a mais glaciações, a mais conflitos eternos que nunca alcançam um verdadeiro desfecho.
No caso da Rússia e da Ucrânia, o que começou como uma guerra convencional transformou-se rapidamente num impasse prolongado.
Cada lado mantém as suas posições, enquanto a população sofre as consequências.
É uma guerra sem heróis, sem vitórias e sem finais.
Apenas uma longa espera, enquanto o gelo do conflito se acumula, enterrando qualquer esperança de uma resolução definitiva.
Este é o futuro que enfrentamos.
Não é um futuro de paz, mas de guerras congeladas.
E enquanto o mundo continua a debater estratégias e soluções, talvez seja hora de aceitar que, nos conflitos do século XXI, o maior desafio não é vencer, mas simplesmente encontrar uma forma de parar.